Cepas de Bordeaux: as 10 cepas tintas e brancas do Bordelais

por Manon b.
 

Cepas de Bordeaux: guia completo das 10 cepas tintas e brancas do Bordelais

Merlot, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Sémillon, Sauvignon Blanc. Os nomes das cepas de Bordeaux ressoam como uma ladainha de lendas no universo do vinho mundial. Pois se Bordeaux é a capital inconteste do grande vinho, é antes de tudo graças à arte do assemblage, essa alquimia sutil que une várias cepas para criar algo infinitamente maior do que a soma de suas partes. 

 

A reter: 

  • 10 cepas autorizadas (6 tintas, 4 brancas) + 6 cepas experimentais desde 2021 para se adaptar às mudanças climáticas.

  • O Merlot é a cepa dominante (60-66%): redondo, frutado, acessível jovem, estrela da margem direita (Saint-Émilion, Pomerol).

  • O Cabernet Sauvignon estrutura os grandes vinhos: taninos, potência e longevidade, rei da margem esquerda (Médoc, Graves).

  • A arte bordalesa repousa sobre o assemblage: Merlot (redondeza), Cabernet Sauvignon (estrutura), Cabernet Franc (elegância), Petit Verdot (intensidade).

  • As cepas brancas principais: Sauvignon Blanc (frescor), Sémillon (riqueza, Sauternes), Muscadelle (aromático), para estilos que vão do seco ao licoroso.

 

Quantas cepas são autorizadas em Bordeaux?

A AOC Bordeaux autoriza oficialmente 10 cepas para a elaboração de seus vinhos, 6 tintas e 4 brancas. A essas cepas tradicionais somam-se desde 2021 6 novas cepas experimentais, introduzidas a título de ensaio para ajudar o vinhedo a se adaptar às mudanças climáticas. Elas não podem representar mais de 5% das plantações e 10% do assemblage final para as AOC Bordeaux e Bordeaux Supérieur.

A grande originalidade de Bordeaux é ser uma região de vinhos de assemblage: a quase totalidade das cuvées bordalesas associa várias cepas para criar um vinho mais complexo, mais equilibrado e mais regular de um ano para o outro. É essa capacidade de corrigir os imprevistos climáticos graças à complementaridade das cepas que explica a longevidade e o prestígio do modelo bordalês.

O assemblage bordalês é uma música. Cada cepa tem sua nota. O Merlot desenrola sua redondeza. O Cabernet Sauvignon instala a espinha dorsal. O Cabernet Franc desliza seu toque floral. O Petit Verdot adiciona a percussão colorida. Juntos, compõem um vinho único.

 

As 6 cepas tintas de Bordeaux

 

Cepa

Superfície

Terroir dominante

Contribuição no assemblage

Merlot

60-66 %

Margem direita (St-Émilion, Pomerol)

Redondeza, generosidade, frutas vermelhas (cereja, ameixa, morango). Acessível jovem, amadurece facilmente.

Cabernet Sauvignon

~22 %

Margem esquerda (Médoc, Graves)

Estrutura, taninos, espinha dorsal, potencial de guarda. Groselha preta, grafite, cedro. Pedra angular dos grandes vinhos.

Cabernet Franc

~9 %

Margem direita & margem esquerda

Fineza aromática, frescor, notas florais (violeta) e frutadas (groselha, framboesa). Elo entre o CS e o Merlot.

Petit Verdot

< 2 %

Médoc (parcelas quentes)

Cor intensa, taninos poderosos, notas apimentadas e de violeta. Utilizado em pequenas doses como revelador.

Malbec

< 2 %

Entre-deux-Mers, Blaye

Cor escura, taninos aveludados, aromas de frutas negras e especiarias. Em regressão em Bordeaux, estrela na Argentina.

Carménère

< 0,3 %

Marginal (Margaux, Pauillac)

Cor muito escura, taninos poderosos, notas apimentadas e defumadas. Quase desaparecido em Bordeaux, exportado para o Chile.

 

O Merlot: a estrela inconteste do vinhedo bordalês

Com 60 a 66% das superfícies vitícolas tintas, o Merlot é de longe a cepa mais plantada em Bordeaux, e uma das mais cultivadas no mundo. Seu sucesso planetário se explica por sua polivalência notável: adapta-se a terroirs variados, amadurece facilmente, produz vinhos acessíveis em sua juventude e evolui admiravelmente com o tempo.

Seus terroirs de predileção

O Merlot se desenvolve particularmente nos solos argilo-calcários da margem direita, Saint-Émilion, Pomerol, Fronsac, Castillon, onde suas raízes podem acessar a água fresca das argilas no subsolo. É nesses terroirs que nascem as expressões mais sublimes da cepa: o lendário Pétrus (Pomerol, quase 100% Merlot), os grandes vinhos de Saint-Émilion como Angélus ou Canon.

Seu perfil aromático

O Merlot jovem se expressa em frutas vermelhas e negras maduras: cereja, ameixa, framboesa, amora, figo. Com a idade, desenvolve notas de chocolate, café, subosque e alcaçuz. Sua baixa acidez natural e seus taninos macios conferem-lhe uma redondeza e uma untuosidade muito sedutoras desde a juventude.

 

O Cabernet Sauvignon: a espinha dorsal dos grandes vinhos

Segunda cepa tinta do Bordelais com cerca de 22% das superfícies, o Cabernet Sauvignon reina soberano na margem esquerda, Médoc, Graves, Pessac-Léognan. Cepa tardia por excelência, exige terroirs quentes e bem drenados para atingir sua plena maturidade: as graves garonnaises do Médoc lhe convêm à perfeição.

Seu papel-chave no assemblage

O Cabernet Sauvignon é descrito como a espinha dorsal dos grandes vinhos de Bordeaux: ele traz estrutura, taninos poderosos, acidez natural e um potencial de guarda excepcional. Seus aromas característicos, groselha preta, grafite, cedro, tabaco escuro, às vezes mentol, constituem a assinatura aromática dos grands crus classés do Médoc: Latour, Mouton Rothschild, Pauillac

Margem esquerda vs margem direita

Na margem esquerda, o Cabernet Sauvignon domina frequentemente com 60-80% dos assemblages nos grands crus do Médoc, com o Merlot em suporte. Na margem direita (Saint-Émilion, Pomerol), as proporções se invertem: o Merlot domina e o Cabernet Sauvignon desempenha o papel de complemento estruturante. Essa oposição fundamental entre as duas margens é uma das chaves para compreender a diversidade dos estilos bordaleses.

 

O Cabernet Franc: a elegância discreta

Com cerca de 9% do vinhedo bordalês, o Cabernet Franc é frequentemente chamado de cepa da elegância nos assemblages bordaleses. Primo do Cabernet Sauvignon, do qual é na realidade um dos pais genéticos, sendo o Cabernet Sauvignon resultado de um cruzamento natural entre o Cabernet Franc e o Sauvignon Blanc.

Ele se destaca na margem direita, especialmente em Saint-Émilion, onde constitui a base de assemblages de exceção: o Château Cheval Blanc é célebre por seus assemblages com alta proporção de Cabernet Franc (às vezes 60%), que lhe conferem uma identidade aromática única e imediatamente reconhecível. Seus aromas característicos: violeta, groselha, framboesa fresca, grafite e ervas aromáticas.

 

Petit Verdot, Malbec, Carménère: as cepas de suporte

O Petit Verdot: o toque de cor e profundidade

Verdadeira cepa de suporte, o Petit Verdot representa menos de 2% do vinhedo. Utilizado em dose homeopática (2 a 5% dos assemblages), age como um revelador: cor intensa, taninos poderosos, notas de especiarias e violeta. Cepa muito tardia, amadurece adequadamente apenas nas safras quentes, o que explica seu papel marginal, mas precioso.

O Malbec: o emigrante glorioso

Originário de Bordeaux, o Malbec (ou "Côt") quase desapareceu do vinhedo girondino após a crise da filoxera e especialmente a geada catastrófica de 1956, que provocou o arranquio de quase todo o vinhedo girondino. Hoje, é conhecido principalmente como a cepa nacional da Argentina, onde encontrou sua segunda pátria. Em Bordeaux, algumas raras propriedades o mantêm em seus assemblages por sua cor escura e seus taninos aveludados.

A Carménère: o fantasma esquecido

Uma das cepas mais antigas de Bordeaux, a Carménère havia quase desaparecido após a filoxera. Chegou-se a pensar que havia sido totalmente eliminada, antes de ser reencontrada em grande quantidade no Chile, onde havia sido plantada no século XIX sob o nome de "Merlot". Em Bordeaux, subsiste em apenas algumas dezenas de hectares, mas as mudanças climáticas poderiam lhe oferecer um retorno notável.

 

As 4 cepas brancas de Bordeaux

 

Cepa

Papel

Appellations de destaque

Perfil aromático e gustativo

Sémillon

Dominante (licorosos)

Sauternes, Barsac, Graves

Mel, damasco confitado, cera de abelha, textura untuosa. Sensível ao botrytis. Envelhece notavelmente.

Sauvignon Blanc

Dominante (secos)

Pessac-Léognan, Graves, Bordeaux Blanc

Cítricos, buxo, ervas frescas, groselha espim. Traz frescor e nervosidade aos assemblages.

Muscadelle

Complementar (secos e licorosos)

Sauternes, Bordeaux Blanc

Notas florais (jasmim, flor de laranjeira), moscatel, aromas exóticos. Utilizada em pequena proporção (5-10 %).

Sauvignon Gris

Complementar (secos)

Bordeaux Blanc, Graves

Toranja, frutas exóticas, notas defumadas. Mais amplo e menos ácido que o Sauvignon Blanc.

 

As cepas brancas representam menos de 20% do vinhedo bordalês, mas dão origem a vinhos de uma diversidade e excelência notáveis: dos brancos secos de Pessac-Léognan, entre os maiores vinhos brancos do mundo, até os licorosos lendários de Sauternes e Barsac.

 

Cepas e terroirs: margem esquerda vs margem direita

A geografia de Bordeaux divide o vinhedo em duas grandes zonas separadas pela Gironda e seus afluentes, cujas práticas de encepamento são fundamentalmente diferentes.

 

Margem Esquerda (Médoc & Graves)

Margem Direita (Saint-Émilion & Pomerol)

Cepa dominante: Cabernet Sauvignon (60-80%)

Cepa dominante: Merlot (70-90%)

Solo: graves garonnaises drenantes, pedregoso

Solo: argilo-calcários úmidos, que retêm água

Estilo: poderoso, estruturado, tânico, grande guarda

Estilo: redondo, opulento, frutado, acessível mais jovem

Appellations: Pauillac, Margaux, Saint-Julien, Saint-Estèphe, Pessac-Léognan

Appellations: Saint-Émilion, Pomerol, Fronsac, Castillon

Exemplos: Châteaux Latour, Margaux, Mouton Rothschild, Haut-Brion

Exemplos: Pétrus, Cheval Blanc, Angélus, Le Pin

 

A regra de ouro: se você aprecia vinhos poderosos, tânicos e de grande guarda dominados pelo Cabernet Sauvignon, olhe para a margem esquerda (Médoc, Pauillac, Margaux). Se preferir vinhos mais redondos, frutados e acessíveis dominados pelo Merlot, volte-se para a margem direita (Saint-Émilion, Pomerol).

 

As 6 novas cepas experimentais desde 2021

Diante das mudanças climáticas, o vinhedo bordalês se adapta. O Merlot, cepa dominante mas muito precoce, sofre nos anos muito quentes: amadurece rápido demais, perde acidez e acumula álcool de forma excessiva. Desde 2021, o INAO aprovou a introdução experimental de 6 novas cepas nas AOC Bordeaux e Bordeaux Supérieur, numa proporção máxima de 5% das plantações e 10% do assemblage final.

 

Cepa

Cor

Origem e interesse para as mudanças climáticas

Arinarnoa

Tinto

Cruzamento Tannat × Cabernet Sauvignon. Boa resistência ao calor e às doenças criptogâmicas.

Castets

Tinto

Antiga cepa do Sudoeste reintroduzida. Boa acidez natural, alternativa ao Merlot nos anos quentes.

Marselan

Tinto

Cruzamento Cabernet Sauvignon × Grenache. Resistente à seca, aromas de frutas negras e especiarias.

Touriga Nacional

Tinto

Cepa rainha de Portugal. Grande resistência ao calor, estrutura tânica poderosa e aromas complexos.

Alvarinho (ou Albariño em espanhol)

Branco

Cepa ibérica (Albariño). Boa acidez natural. Alternativa ao Sauvignon nos anos muito quentes.

Liliorila

Branco

Cruzamento Baroque × Chardonnay (INRAE). Belo frescor aromático para os brancos secos, boa resistência às doenças criptogâmicas.

 

Essas cepas experimentais oferecem resistência ao calor e às doenças, maior acidez natural ou maturação mais tardia do que o Merlot. Sua introdução é progressiva e regulamentada: trata-se de uma ferramenta de adaptação, não de uma revolução estilística. A grande maioria dos vinhos de Bordeaux continuará sendo assemblages à base de Merlot, Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc por muitas décadas ainda.

  

Perguntas frequentes sobre as cepas de Bordeaux

Quais são as cepas utilizadas em Bordeaux?

A AOC Bordeaux autoriza 10 cepas: 6 tintas (Merlot, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Petit Verdot, Malbec, Carménère) e 4 brancas (Sémillon, Sauvignon Blanc, Muscadelle, Sauvignon Gris). Desde 2021, 6 cepas experimentais foram adicionadas para ajudar o vinhedo a se adaptar às mudanças climáticas.

Qual é a cepa principal de Bordeaux?

O Merlot é a cepa dominante do vinhedo bordalês, representando 60 a 66% das superfícies plantadas em tinto. Está particularmente presente na margem direita (Saint-Émilion, Pomerol). Na margem esquerda (Médoc), é o Cabernet Sauvignon que domina, embora o Merlot também esteja muito presente em segundo papel.

Qual é a diferença entre o Merlot e o Cabernet Sauvignon?

O Merlot é mais macio, frutado e acessível jovem. Produz vinhos redondos, generosos, com aromas de cereja, ameixa e chocolate. Prefere os solos argilosos da margem direita. O Cabernet Sauvignon é mais tânico, estruturado e apto para longa guarda. Seus aromas evocam o groselha preta, o grafite e o cedro. Ele se destaca nas graves da margem esquerda. Juntos, se complementam perfeitamente no assemblage bordalês.

Quais são as cepas brancas de Bordeaux?

As 4 cepas brancas autorizadas são o Sémillon, o Sauvignon Blanc, a Muscadelle e o Sauvignon Gris. O Sauvignon Blanc domina os vinhos brancos secos (Pessac-Léognan, Bordeaux Blanc). O Sémillon é rei nos grandes licorosos (Sauternes, Barsac), graças à sua sensibilidade ao Botrytis cinerea. A Muscadelle traz um toque floral aos assemblages.

O que diferencia a margem esquerda da margem direita de Bordeaux?

A margem esquerda (Médoc, Graves, Pessac-Léognan) é dominada pelo Cabernet Sauvignon em solos de graves drenantes. Seus vinhos são poderosos, tânicos e feitos para longa guarda. A margem direita (Saint-Émilion, Pomerol) é dominada pelo Merlot em solos argilo-calcários. Seus vinhos são mais redondos, opulentos e acessíveis mais jovens.

Por que Bordeaux introduziu novas cepas?

Diante das mudanças climáticas, os verões cada vez mais quentes provocam uma maturação prematura do Merlot, resultando em vinhos demasiado alcoólicos e com falta de frescor. Desde 2021, o INAO autorizou a introdução de 6 cepas experimentais (entre elas a Arinarnoa e a Alvarinho) que oferecem melhor resistência ao calor e maior acidez natural. Sua proporção permanece limitada: máximo de 5% do vinhedo e 10% do assemblage.

O Cabernet Franc é importante em Bordeaux?

Sim, apesar de seus 9% do vinhedo, o Cabernet Franc desempenha um papel crucial em Bordeaux, especialmente na margem direita. É a cepa de identidade do Château Cheval Blanc (Saint-Émilion), um dos vinhos mais caros e admirados do mundo. Ele traz fineza aromática (violeta, framboesa), frescor e elegância aos assemblages, servindo de elo sutil entre o Merlot opulento e o Cabernet Sauvignon estruturado.

 

 

 

 

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